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Na Serra do Alhastro, para cá da Serra de Além, conta a lenda que viveu uma moura.

Este sistema montanhoso, que divide a freguesia de Brasfemes da União de Freguesias de Souselas e Botão e da União de Freguesias de Torre de Vilela e Trouxemil, é constituído por rocha sedimentar, propícia à formação de grutas, devido aos lençois de água subterrâneos que provocam alterações químicas nos calcários. A água da chuva, infiltrando-se através das fissuras, dá origem a cavidades subterrâneas mais ou menos espaçosas, também denominadas lapas. As águas que circulam nos terrenos calcários, por vezes voltam à superfície, daí que se formem pequenos cursos de água.

Confrontada com um buraco na serra, junto do qual emergiam umas fontes, a população chamou-lhe Toca da Moura. Ali habitava uma bela encantada, do tempo dos mouros. O buraco estreito exercia um fascínio nos rapazes da aldeia, que tentaram, ao longo dos tempos, explorá-lo. Segundo os seus relatos, a parca entrada da toca, que atravessavam  aninhados, abria-se depois numa larga galeria, com longas colunas e um lago, onde andavam de pé. Há quem fale também em bancos escavados na rocha.

Estas incursões nunca foram muito proveitosas, pois a grande maioria dos exploradores tinha receio do desconhecido e voltava para trás. No entanto, houve alguém mais ousado que, diz a voz do povo, teria chegado ao lado de cá, provando que a serra seria atravessada por  este vácuo subterrâneo.

As fontes surgiam mais abaixo do orifício. Eram águas de nascente, por vezes aproveitadas para o consumos das gentes das aldeias. Diziam que era muito boas e iam desaguar à ribeira que vinha da Quinta do Resmungão e dos campos de Rejágua.

A imaginação ocupa-se do resto e os relatos são tão diversos quanto misteriosos. Certezas, só aquela estranha abertura por explorar, hoje tapada pelo dono dos terrenos, e uma moura que herdámos do passado.

Consiglieri Pedroso, nas suas Contribuições para uma Mitologia Popoular Portuguesa, fala-nos do fenómeno das mouras encantadas em Portugal, exemplificando os seus aspectos lendários. Chama-lhes divindades ou génios femininos das águas que surgem, por associação de ideias, nos penedos e nas penhas com a feição de guardadoras de tesouros. Saem à meia noite do dia de S. João (que por coincidencia é o padroeiro de Brasfemes) e vão pentear-se sobre os montes com pentes de ouro, mirando a lua, Depois, vão buscar o tesouro que está escondido. Fala também da sua ligação às fontes e nascentes da do que o povo, sempre que uma nascente secava, dizia que tinha sido uma moura que a bebera, assumindo assim um papel malévolo.  

Quem sabe se este curioso pormenor do património oral brasfemense não advém do mesmo filão cultural e esta moura não foi inventada não só para mistificar a existência de tal fenda na rocha, mas também para explicar o facto de a nascente secar?

Teríamos que recuar muito tempo para sabê-lo.

Texto gentilmente cedido Por Vitor Jorge  http://brasfemense.no.sapo.pt/

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